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Para quem está de saco cheio

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5.5.09
 
Prezados,

A ausência de posts se deve à minha recente mudança de trabalho. Estou na Secretaria de Estado de Educação do Rio agora. Como fui aluno dessa rede, acho que é hora de retribuir.

Quando a situação normalizar, volto com a rotina de textos.

Ex ducere pro nobis


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2.3.09
 
Minha amiga Aline pediu uma crônica sobre a Reforma Ortográfica para trabalhar com os alunos dels. Eis:

A LÍNGUA QUE SE MUDOU

Tenho lido alguma coisa de especialistas sobre a Reforma Ortográfica, bem como acompanhado as manifestações de amigos e conhecidos, usuários comuns da língua portuguesa. Para muitos desses, a razão da mudança se deu por burocracias de velhinhos eruditos, falta de preocupação oficial com coisas realmente importantes – como saúde, segurança e, acho irônico, educação – ou até mesmo um esquema articulado por editoras para vender novos dicionários.

Ouço falar dessa reforma há mais de dez anos, inclusive quando ainda estudava Letras. Na época, decorei o que seria mudado, como se quisesse estar sempre a par das atualizações linguísticas, mas como Portugal e outros países não o aprovaram, esqueci o assunto e voltei a decorar poemas – estes sim, reformadores da linguagem.

Estou confuso ainda com o uso do hífen em alguns casos, sem saudade nenhuma do trema e indiferente a determinados acentos. Ainda que nem sempre com literatura, trabalho escrevendo, e por isso é necessário saber como se expressar oficialmente. Imprimi um quadrinho que resume as principais mudanças, o qual tem dado conta enquanto não me acostumo com a nova cara de uma ou outra palavra.

Para a grande maioria dos usuários do vernáculo, essas reformas ortográficas pedem apenas isso mesmo: que aceitemos não nos acostumar o tempo todo. Não me lembro onde li que a língua é um tipo de casa onde a gente mora. Mudar as palavras gera um estranhamento parecido com aquele de quando se mudam móveis de lugar. Apenas a mobília, sem obras que mexam na estrutura da construção. Depois de passar o dia inteiro na rua, tudo de que precisamos é o lar, um espaço no qual tudo será reconfortante e conhecido. Mas um súbito espanto nos assola quando no lugar da mesa está um sofá, ou que é possível ver uma parede onde antes havia um guarda-roupa, ou que a geladeira cinicamente trocou de lugar com o fogão. Com o tempo, a língua e a casa já serão facilmente reconhecíveis. Até que seja preciso mudar de novo.

Por isso é que as colmeias, os tranquilos, os voos, os micro-ondas, os paraquedas e tantos outros indivíduos são estranhos até para o processador de texto do computador, que teima em achar que sabe tudo. Sabe nada.

Acredito que, se as palavras e os móveis modificados nos pedem tempo, vamos dar esse tempo para eles, sem excesso de preocupação em cometer uma ou outra gafe. Eu não tenho medo de escrever errado. Acho que tenho mais medo é de não ter o que e para quem escrever, mesmo dominando todas as regras e macetes. Aí seria como mudar os móveis e não receber nenhuma visita. (E como há por aí tantas casas inabitadas...)

Com a Reforma Ortográfica, agora todos os falantes de português devem escrever de um jeito só. Isso trará benefícios culturais, políticos e econômicos em algum tempo. Mas não nos esqueçamos de que a casa da língua é a boca e a melhor unificação linguística ainda é o beijo.


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4.2.09
 


Saiu hoje no blog do Prosa e Verso este meu poema.

APELO PARA A MOÇA DE ÓCULOS

Da tua distância, a realidade é míope:
As linhas inexatas e difusas
Só em ti ganham sentido. E até Calíope,

A musa mais sabida dentre as musas,
Pudesse, ficaria bem mais bela
Ornada com os óculos que usas.

Porque moça, há aí dentro das janelas
Um aquário em que as meninas, com seu nado,
Me encantam (de sereias que são elas...).

E o meu olhar, também sincronizado,
Mergulha e é pescado na armação
Que cobre esse teu mar esverdeado.

Não são muletas, máscaras, e não
Isolam o teu olhar do que vem vindo.
Mas sim frágeis molduras, onde então

É semirrevelado algo tão lindo,
Que é o teu rosto nesses óculos. Molhe-os
Com lágrimas de quem chora e está rindo

Até que eu possa enfim despir teus olhos.



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26.1.09
 


ADÉLIA ME PÔS PARA DORMIR

Hoje à tarde vi Adélia Prado na televisão. Depois de almoçar com a família, prostrei-me no sofá e de repente me vi zapeando, até que o dedo parou tão logo visse a mineira, acredito que a nossa mais importante escritora em atividade. Falava de coisas extremamente simples e essenciais, como o fato de a arte ser voltada para o sentimento, não para a lógica, e que a poesia existe porque nós não nos contentamos com a instância ordinária das coisas: precisamos do extraordinário.

Porém, como tivesse comido feijoada com a voracidade dominical, e os meus recursos internos se concentrassem na difícil extração digestiva daqueles nutrientes inusitados, fui adormecendo.

E dormi um sono em que Adélia continuava sua conferência. No surrealismo desse estado, em vez de falar para a platéia numerosa e atenta do programa gravado, a poeta conversava apenas e diretamente comigo. E era como se me lembrasse de coisas das quais já havia me esquecido, ou então alertava para que não as esquecesse. Aquele ensinamento íntimo abarcou desde questões técnicas da escrita até a necessária manutenção de um olhar que retirasse literatura da vida, mas que depois não deixasse de devolver para a mesma vida o que eu viesse a construir ou modificar pela arte da palavra.

Em dado momento, devo ter balbuciado que não estou mais escrevendo poemas porque fiquei cansado, embora depois talvez volte. Em vez de me fazer refém da minha própria inspiração e sugerir uma continuidade forçada, ouvi uma frase que dizia algo como “o tempo da poesia é um tempo diferente e deve ser respeitado”. Foi um alívio que me fez despertar, no momento final do programa, quando ela começava a ler seus poemas.

Adélia chora ao ler alguns dos seus textos. Quem esteve na Festa Literária de Parati ano retrasado certamente conferiu e partilhou com ela essa experiência de se emocionar diante da beleza pura e aguda das palavras. Pelo que me lembro, foram raros os que não choraram também, mesmo os que, como eu, só puderam assistir pelo telão. Hoje eu não chorei, mas sorri enquanto me esticava no sofá feito um gato preguiçoso. Levantei-me e fui conferir minha mãe e meu irmão tirando um cochilo, cada um no seu canto. Olhando-os assim, pensei, ainda sonolento, que eles são o meu grande poema.

E agora, madrugada de domingo para segunda, antes de entrar no sono para começar uma nova jornada rumo ao cotidiano prático e ordinário, rogo para que as doces palavras de Adélia Prado voltem a frequentar meus sonhos e os transcenda rumo à vida. E que aquela espécie de acalanto nos inspire a buscar o extraordinário ao longo de todo o dia.


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22.1.09
 
DEZ QUILÔMETROS MAIS PERTO

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Antonio Machado

Após estímulo dos colegas de trabalho, participei da corrida de S. Sebastião, na última terça-feira. Convém mencionar que não sou atleta e só frequento academia por recomendação médica, inclusive pela implicante suspeita de que as bicicletas e esteiras que não saem do lugar podem conferir uma metáfora da vã trajetória humana. Mas se o ambiente bate-estaca da marombagem não me interessa tanto, o lance da corrida foi surpreendente pacas.

Não posso deixar de lado o fato de que correr no dia do padroeiro da cidade também foi um tipo de procissão, só que mais rápida e com um grau maior de sudorese. Além do privilégio de se estar numa das paisagens mais belas do mundo, correr no (e pelo) Rio de Janeiro é uma possibilidade para que sejam exercitados não só os joelhos, mas também alguns princípios básicos de civilidade.

Ao contrário do que eu pensava, essas corridas agora me parecem uma atividade mais cooperativa do que competitiva, que encerra uma necessária visão de mundo hoje. Em termos de ideologia talvez seja uma contrária à da era Big Brother - segundo a qual, numa simulação de vida, o indivíduo ganha um milhão ao eliminar todos que o cercam. Na corrida, o pessoal dá força para que outros compartilhem a chegada no final daquele ciclo. Ouvimos a todo tempo palavras de incentivo e superação, e, quando nos damos conta, estamos fazendo a mesma coisa pelos outros.

Numa dessas é que nos deparamos com figuraças, como os corredores fantasiados e mesmo um senhor que passou por mim quando, alertado pelas minhas parcas limitações cardiorrespiratórias, já pensava em reduzir o ritmo. Sem deixar que eu parasse, disse que sempre corre, salta de asa delta, pratica queda livre, mergulho e – o mais difícil e árduo desafio – já se casara seis vezes. Por coincidência, era aniversário dele: setenta e um anos.
Em tempos de Obama e a consequente onda de renovação, não custa fechar este breve relato com a frase do seu pai histórico, Martin Luther King Jr: "Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito.”

E é para frente que eu sigo. Não sei bem para onde, por que ou até quando, mas sei que estou dez quilômetros mais perto.


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31.12.08
 
O GRÃO DA AMPULHETA

O que se foi já foi, embora esteja
Tão perto, aqui do lado, cutucando
A beira da memória, justo quando
Pensamos ter vencido essa peleja.

O que passou, passou, mas ainda passa.
E por passar ainda, permanece
Um fardo, um cheiro, um grão que amadurece
À medida que o tempo se esfumaça.

É um ano novo, um novo calendário,
Novo verão - porém a mesma aurora
De um futuro que sempre se inicia.

E é assim que o tempo passa: imaginário.
Como quem morre e nasce a cada dia,
Como quem chega enquanto vai-se embora.

Feliz 2009, galera!

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22.12.08
 
Vai um poema que fiz há alguns anos sobre o assunto atual. Sou daquele grupo dos que ficam meio ressabiados nessa época, mas não deixa de ser uma oportunidade para se agradecer pelo que se tem e pedir força para conquistar o que não se tem.

NÓS, OS CRUCIFICADOS


E foi anunciado que um tipo azul de rosa tímida eclodiu por esses dias
- Azul porque do céu longínquo, e o mesmo da tristezas inexpugnáveis -
Que na redenção íntima e universal comportaria o peso dos aflitos
E em cuja face repousaria eternamente o sumo insidioso dos pecados.
Mas eis que num repente desabrocha a inssureição das madrugadas
E o canto dos perdidos, na clemência dos abismos, das desgraças
Se eleva em tom doce-sulfúrico nos desertos dos teus dias.

Percebes? As vozes todas gritam gritam gritam até virarem um clarão
E se te prometem rio cobrem teu deserto com barragem
E as tuas cidades destruídas com a ânsia de fluência choram inutilmente sepultadas.

Repara na tua carne, tuas mãos, teus dedos: pouco lhe cabem
E ainda assim permaneces responsável pelo imenso fardo
Das noites e dos dias e da sensação perene de abandono
E a fé como um suspiro procrastinador dos desalentos
Te imprime a cada ciclo a nódoa taciturna e lenta.

Silenta.
O que lhe cabe é cruz, mas repara que ela tem o mesmo formato de tua mão.
E caminha, imaginando que nela repousa a lembrança de uma rosa azul.
E na firme experimentação de que o teu silêncio é ouro, incenso e mirra,
Renascerás por sobre as máculas como um tipo infinito de ternura.

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15.12.08
 


CAPITU

Enquanto procurava um documento em disquetes antigos achei um arquivo de 1999 (do século passado!) com exercícios de quando fazia oficina literária. No caso, a idéia era escrever uma carta ao Machado de Assis.

Fiz meus agradecimentos ao Bruxo - inclusive porque minha turma de formatura se chamou Brás Cubas - e encerrei a carta com um soneto sugerido no "Dom Casmurro". Explico: em dado capítulo do livro, Bentinho está no seminário e, com saudades, tenta escrever um soneto para Capitu, mas só consegue fazer o primeiro e o último versos. Termina o capítulo dizendo que deixa a cargo de algum desocupado preencher o soneto.

Então exerci a função de desocupado. Vai aí.


Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
És flor que baila ao vento, inebriada.
Em sonho a tua presença é iluminada,
Tão cheia de beleza e de ternura.

Tu vens me visitar na noite escura,
E sinto uma emoção desconfiada.
Parece, Capitu, que não é nada,
Talvez só esse excesso de candura.

Pensando bem, tu és como uma rosa:
Possuis essa aparência majestosa,
Mas guardas sob as pétalas espinho.

E penso cá comigo: “Vai, Bentinho,
Segura essa tua rosa, a tua navalha.
Ganha-se a vida, perde-se a batalha!”

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8.12.08
 


Já aconteceu, eu sei. Mas a correria não me permitiu atualizar o blog.

Participei da Primavera dos Livros dia 30/11, na mesa-redonda "Machado de Assis: as diferentes faces do Bruxo do Cosme Velho", e depois no Festival de Poesia, que homenageou Vinicius de Moraes.

Aliás, dias antes escrevi um soneto especificamente para ler no evento, meio à la Vinicius. Mas como estava voltando da Feira do Livro de Porto Alegre, acho que as duas últimas estrofes ficaram com cara de Quintana...

SONETO DE AMOR COM PONTO E VÍRGULA

O amor não me ensinou a ser maduro;
Também não me deixou mais inocente;
Não me nomeou escravo ou independente;
Antes, trancou-me livre no seu muro;

O amor não me tornou um ser mais puro;
Mas me sujou de vida, e fui em frente;
Mostrou ser soberano quem o sente;
E assim me deixou, trôpego e seguro;

O amor desenrolou-se de um novelo,
Em linhas que desfio e, sendo tinta,
Costuro em borda e tento compreendê-lo;

E só resta dizer: coisa indistinta,
Pensar o amor é como ver a lua,
Que mesmo quando acaba continua...


(Vôo 3416, sobre o litoral do Sul, 05/11/08, manhã.)




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7.11.08
 


Já aconteceu, mas não deu tempo de postar antes. Estive a trabalho na Feira do Livro de Porto Alegre até quarta, quando cheguei e fui direto falar com a molecada sobre Machado em Santa Teresa. Foi bom pacas. Ao fim, ganhei biscoito Globo.


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23.10.08
 
ELEGIA DA PAIXÃO DESMEDIDA

“O amor não deixa sobreviventes.” Nelson Rodrigues

Semana passada um jovem seqüestrou a ex-namorada, que acabou morrendo. Não foi a primeira vez que a população pôde acompanhar ao vivo um crime no caldeirão da fervura urbana. Tampouco é inédito que todos os meios de comunicação ponham foco num único fato devido à audiência certa. No mesmo conjunto, seqüestro com morte por ação questionável da polícia também não é novidade. Não me interessa a (falta de) ação das autoridades etc. No mesmo dia em que acabou o incidente, vi que os civis e militares estavam se batendo em São Paulo, então é melhor deixá-los assim e assumirmos que não dão conta de pôr ordem na realidade. Se a polícia não se entende, não sou eu quem vai entendê-los.

No entanto, algo nesse episódio me comoveu de forma inesperada, como se ali estivessem contidas algumas senhas e chaves para o entendimento desse mundo caduco. Alguns aspectos são bem simbólicos em tudo o que ocorreu, que para mim caracterizam o caso como uma tragédia das mais clássicas.

Essa rede simbólica já começa com os nomes dos envolvidos, cuja etimologia aponta para alguma possibilidade de atribuir sentido ao fato. Eloá, nome de origem hebraica, é uma das formas de se pronunciar o nome de Deus; Lindemberg era um nome comum entre nazistas; a amiga Nayara, em grego, significa “aquela que comanda”.

As tragédias gregas se baseavam na idéia de que o herói ultrapassou o seu métron , que seria o limite de cada um, e cometia a hybris , um tipo de orgulho desmedido. Por isso, deveria sofrer a hamartía , a punição divina, que no caso do teatro clássico possuía um fim didático, servindo para mostrar ao povo que certos espaços não podiam ser ultrapassados.

Terminado o namoro, Lindemberg não teve a experiência necessária para entender que o amor acaba. Embora sete anos mais velho, amou Eloá de forma imatura. Vítima da perspectiva adolescente, via o mundo como possibilidade ilimitada, o tempo como distância de eternidade e a paixão como mergulho infinito. O amor sempre exige a transcendência, quer expansão. Uma vez que não seja possível expandi-lo via conquista, lança-se mão dos artifícios de domínio.

Essa hybris de Lindemberg o fez tomar por força o seu objeto de devoção e culto, sua manifestação divina encarnada numa jovem. Mesmo sem antecedentes criminais, foi necessário entrar no território do comportamento criminoso pelo descontentamento com a rejeição. Lindemberg invadiu o espaço da liberdade alheia para impor os seus desejos. O amor se converteu na sua face mais doentia, a da falsa sensação de posse – porque ainda hoje há quem creia na idéia de se ter algo ou alguém como um objeto -, em detrimento da cessão e da troca.

Ao matar Eloá, Lindemberg assassinou o que o aproximava de Deus. Quis dominar o que não se presta a ter dono: Deus e a mulher. À amiga Nayara, aquela que comanda, restou a tentativa de mediar o conflito, tendo exercido de fato a indevida função de negociadora, porém foi silenciada com um tiro na boca. Impotente, a polícia silenciou o seqüestrador com balas falsas.

Apontar culpados é antes procedimento jurídico ou necessidade de justiça do que se assumir que nesse tipo de caso todos acabam sendo vítimas. Parece que Lindemberg não sabe ainda que sua ex-namorada morreu. Quando souber, vai sentir a sua hamartía , e provavelmente terá a dura ciência de que nunca mais poderá amar e ser amado de forma minimamente sadia.

É preciso lucidez e maturidade para se despedir, inclusive do amor. Lindemberg, Eloá e Nayara nos fazem lembrar que o aspecto trágico da condição humana nos situa na dimensão da finitude, e que esse é o intervalo que foi reservado para a manifestação da nossa intensidade.

E por não compreender o tempo da ausência, esse rapaz nem pôde aprender que o amor também é abnegação – e às vezes requer deixar a moça ir embora para sempre.


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16.10.08
 
Fui professor um tempo; antes, durante e depois disso, aluno. De docente, ficou a experiência difícil de tentar ensinar a pensar, ler e escrever. Isso só me fez admirar mais ainda os professores, que lutam mesmo e, para citar o poema do João Cabral que segue abaixo, muitas vezes tiram leite de pedra.

Tive sorte de esbarrar com excelentes ao longo da vida, e é a eles que devo o fato de ter começado a escrever. Como não cresci cercado de livros, foram pessoas como a doce (tia, é como se chamava) Edna (4ª), a esperta Angélica (8ª), o sagaz poeta Roberto Pontes e a empolgada Luiza (graduação) que me educaram para a leitura e abriram espaço. Sem eles, talvez eu me tornasse uma das muitas pessoas com potencial não desenvolvido e fadado a se converter em frustração em certo ponto da vida. Talvez estivesse no serviço militar. Talvez estivesse em subempregos. Talvez estivesse morto.

Como autor, tenho participado de uma gratificante experiência, que é visitar escolas para conversar e realizar oficinas com alunos e professores. A despeito do que se diz, tenho visto muitos desses profissionais empenhados em fazer o que a educação significa etimologicamente: conduzir para o mundo (ex ducere), via leitura. Por esses dias, fui conversar com algumas dezenas de professoras que cuidam das salas de leitura de escolas públicas. Não me sinto exemplo de nada ou de ninguém, mas tive de dizer o quanto o trabalho delas pode mudar a trajetória de uma pessoa. Foi um grande momento lembrá-las de que têm uma responsabilidade imensa: aquela que, como disse o Italo Calvino, consiste em tentar reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e abrir espaço.

Parabéns aos colegas professores. E obrigado.

A educação pela pedra
João Cabral de Melo Neto

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.


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10.10.08
 


Esqueci de postar: saiu no Globo em 21/09, na página LOGO, este soneto que o Arnaldo Bloch me pediu sobre a crise em Wall Street.

A BURGUESIA FED

Criou-se um Big Bang no pregão!
E no buraco negro financeiro
Partícula invisível de dinheiro
Chocou-se com a dadívida, explosão

Que se desdobra numa reação
E em pouco tempo traga o mundo inteiro.
Pelo redemoinho no bueiro,
Preenchem com buraco a depressão.

Contra esse apocalipse? Tarja preta,
Socorro que até deixa uma gorjeta,
Dando ao mercado um ar de beatitude.

E é bom lembrar que mesmo o Titanic
Buscava tanto o fundo, e foi a pique:
Só faturou bilhões em Hollywood.


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27.9.08
 
CLIPPING 2

Saiu uma uma breve entrevista que dei para a CBN sobre Machado. Dá pra ouvir aqui.


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21.9.08
 
CLIPPING

Está no ar uma entrevista que dei para o portal Conexão Professor sobre Machado de Assis. Estou muito bem cercado, pois os outros entrevistados são o doutorando Leonardo Vieira de Almeida, o poeta e crítico Antonio Carlos Secchin e o grande especialista em estudos machadianos John Gledson. Confere lá.

p.s.: conforme tenho dito, talvez haja um excesso de Machado por aí. Mas talvez depois que passar essa onda do centenário do falecimento passar, talvez tenhamos um número maior de leitores espontâneos do Machado, afastando-o do trauma da leitura obrigatória escolar.


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